Quando investir em mobilidade é uma questão de saúde

POR LUIZ FERNANDO HAGEMANN

Vivemos em uma sociedade em que o papel do planejamento de uma cidade é visto como algo descentralizado e isolado por departamentos e áreas afins. Muito dessa visão vem do fato de que o poder público estabelece seu organograma baseado, em muito, na segregação orçamentária instituída pela legislação. Todavia, as mesmas leis que segregam também instituem a integração de políticas públicas na execução dos serviços oferecidos à população. Infelizmente, não é o que normalmente ocorre.

Falta aos gestores e servidores entenderem que o planejamento urbano é muito mais que definir questões urbanísticas aos lotes ou criar e manter um sistema viário. Falta-lhes uma visão holística de gestão da cidade, como por exemplo, entender que investir em mobilidade ativa é questão  de saúde pública. Um estudo recente da Universidade de Glasgow, na Escócia, publicado no The British Medical Journal, mostrou a redução da incidência de câncer e doenças cardiovasculares em pacientes que se locomovem ativamente.

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Foto: Luiz Fernando Hagemann, 2017.
#ParaTodosVerem
>> Vista da ciclovia larga em Londres com diversos ciclistas; e ao fundo, o a pista dedicada aos veículos automotores e, ainda, os anexos do Parlamento Britânico. <<

 

Assim, investir na qualificação de calçadas e cicloestruturas, não somente corrobora para a melhoria da mobilidade urbana, mas, também, na melhoria da qualidade de vida dos habitantes através da redução da incidência de doenças relacionadas ao sedentarismo. Londres, por exemplo, está focada na implementação de “Ruas Saudáveis” -um plano de qualificação e incentivo ao caminhar e pedalar nas jornadas curtas do dia-a-dia – e para suportar os investimentos necessários, apresentou um estudo que comprova que se os londrinos caminhassem ou pedalassem vinte minutos diários, seu sistema público de saúde economizaria £1.7bi em tratamentos durante 25 anos.

 

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Foto: Paula Tanscheist/WRI Brasil Cidades Sustentáveis, 2016.
#ParaTodosVerem
>> Vista da ciclofaixa com segregação física através de “tartarugas” em Joinville com um ciclista posando para a foto; e ao fundo, o a pista dedicada aos veículos automotores e, ainda, um posto de gasolina. <<

 

Vale lembrar que a legislação brasileira permite que o poder público destine verbas carimbadas à saúde para o investimento em mobilidade ativa, ou até em transporte público, visto os benefícios a qualidade de vida e redução de gastos pelo SUS advindos de tais investimentos. Entretanto, a falta dessa visão holística ou, permita-me expandir, o medo do debate político em torno de tema tão sensível, evita que o poder público invista em mobilidade urbana sustentável que gera de fato elevação dos níveis de qualidade de vida de nós cidadãos.

 

* Esse artigo foi primeiramente publicado no Jornal A Notícia no dia 08.09.2017.

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